MARSALL, Julien Lannes; MARCILHACY, David; RALLEE, Michel; RODRÍGUEZ, Miguel. De los conflictos y de sus construcciones. Mundos ibéricos e latino-americanos. Paris: Editions Hispaniques, 2013.


Lançada em 2013, a coletânea intitulada De los conflictos y de sus construcciones. Mundos ibéricos e latino-americanos é fruto de um ambicioso projeto, não apenas pela quantidade de autores envolvidos – ao todo 29 pesquisadores de diferentes universidades europeias e latino-americanas – mas, principalmente, por sua intenção de reunir distintos enfoques temáticos, geográficos e temporais tendo como eixo norteador conflitos políticos e sociais ocorridos na península Ibérica e a América na Latina ao longo dos séculos XIX e XX.

Organizada por Julien Lanes Marsall, David Marcilhacy, Michel Rallee e Miguel Rodríguez, todos da Université Paris-Sorbonne (CRIMIC/IberHis), a obra está dividida em três partes. A primeira e mais longa, intitulada En los Orígenes. Génesis y gestaciones de los conflictos, é composta por 12 estudos de casos que abrangem Espanha, México e Brasil, estendendo-se das décadas finais do século XIX a meados do século XX. Nessa parte, o leitor encontrará reflexões sobre o movimento anticlerical e antimilitar, presentes no capítulo La acción popular en la revolución liberal: génesis, tradición y mito, que analisa os assassinatos de clérigos e militares ocorridos na Espanha no período de 1835 a 1936, escrito por Manuel Santirso, e no texto de Julien Lanes Marsall sobre as sátiras anticlericais presentes nas obras do deputado e escritor Roberto Robert. Na sequência, dois capítulos discutem conflitos agrários. O de Carlos Illades Aguiar, intitulado Los socialistas y La violencia agrária. La rebelión de los pueblos unidos 1879-1881, que trata da questão no interior do México e, o outro, de Paulo Pinheiro Machado, Estado nacional, fronteras y conflictos campesinos en Brasil durante la Primera Republica: el caso del “Canudinho de Lages”, discute as relações entre messianismo, revoltas camponesas e repressão no sul do Brasil, no período final do século XIX e primeiras décadas do século XX. O capítulo posterior, escrito por Sergio Zermeño, La matriz de La acción conflitual de los mexicanos. De 1968, a La fecha procura estabelecer categorias de análise que permitam pensar em uma matriz da ação conflitual naquele país. Os demais capítulos dessa parte tratam, em diferentes escalas e contextos, dos conflitos relacionados à organização operária e aos movimentos sociais, especialmente das greves e resistências em âmbito político. Esse é o caso dos textos de Claudio Henrique Batalha, Las corrientes del movimiento obrero brasileño frente a la huelga (1890-1925); de Michel Ralle, Entre ‘curso natural de la huelga’ y la huelga general. Un camino no tan despejado (1880-1902); de Francisco Sánchez Perez, Las huelgas durante la República: el caso de 1936; de Marcelo Badaró de Mattos, La huelga moderna en Brasil urbano; de Gutmaro Gómez Bravo e Rubén Pallol Trigueros, Orden, delicto y subversión. El estudio de la criminalidad, la conflictividad social y la violencia política en el Madrid de la primera mitad del siglo e de Rubén Vega García, Solidariedades de base: instinto de clase y resistencias obreras en las Asturias franquistas.

A segunda parte do livro, intitulada Formas del conflicto. Símbolos, discursos y violência, está dividida em nove capítulos que tratam de diversos aspectos relacionados a categorias de análise, relações de gênero, construções discursivas e imagéticas presentes em distintas formas de conflitos. O capítulo inicial, escrito por de Eduardo Gonzalez Calleja, reflete sobre a natureza do conflito e da violência, em seguida, Laeticia Blanchard Rubio discute a primeira guerra carlista por meio de imagens, interrogando-se sobre o espaço de violência dessa apresentação e, na sequência, Francisco Morente analisa comparativamente a luta pelo controle da educação na Espanha e na Itália durante os regimes fascistas. O capítulo seguinte, de Hélène Dewaele Valderrábano, trata da propaganda das direitas autoritárias espanholas e sua apologia à violência no período de 1931 a 1936. Javier Dominguez Arribas trata dos conflitos no interior da coalizão franquista, discutindo o caso das acusações de maçonaria lançadas por distintas facções no momento de divisão do poder, desde a Guerra Civil até a Segunda Guerra Mundial. Os três últimos capítulos dessa parte analisam questões relacionadas à Argentina e ao Brasil. Dora Barrancos apresenta Mujeres y conflicto social en Argentina: de las madres de la Plaza de Mayo a las piqueteras; Ricardo Antunes escreve sobre Las luchas sindicales y la nueva morfología del trabajo en Brasil e Silvia Castillo-Winter discute as Migraciones actuales en Argentina: cohabitación y conflictos territoriales.

A última parte do livro Templar los conflictos. Construir memorias enfatiza a análise de questões relativas à construção e reelaboração de memórias de conflitos especialmente na Espanha, pois dos sete capítulos que compõem essa parte, seis tratam desse espaço nacional. São eles: La aceptación de la derrota: las élites españolas frente a los EEUU tras el 98, de Antonio Niño y José Antonio Montero; Iconografías y representación militante del conflicto obrero en España durante el siglo XIX, de Pere Gabriel Sirvent; Conflictos de memoria, memorias en conflicto. La memoria histórica española en Francia, de Serge Buj; El consenso puesto a prueba del conflicto: nueva mirada a la transición española, de Sophie Baby; Un conflicto “sans issue”: nacionalismo y crisis del Estado en España, de Antonio Elorza e La memoria de la guerra civil española a través de la mirada de Gerda Taro, de Rosario Ruiz Franco. O capítulo final, de Magdalena Schelotto e Nadia Tahir, retoma as discussões referentes à América do Sul, tratando de Los conflictos del pasado en el centro de los debates políticos actuales en el Rio de la Plata.

Dentre os méritos da obra, pode-se destacar, a partir da sucinta apresentação realizada, a coragem de tratar de uma temática tão complexa, multiforme e polifônica quanto os conflitos, suas construções, representações e memórias, em um âmbito geográfica e cronologicamente amplo. Isto permite ao leitor o contato com distintos questionamentos e recortes sobre o tema, colocando em circulação aportes teóricos, abordagens metodológicas e fontes, presentes nos estudos realizados por pesquisadores de universidades argentinas, brasileiras, espanholas e francesas, o que sem dúvida ajuda a difundir conhecimento e a superar as barreiras ainda existentes para a formação de redes internacionais de pesquisa.

O esforço que ensejou o livro pode ainda ser pensado como parte de um movimento mais amplo de renovação historiográfica, marcado pela interlocução entre distintos ambientes de produção de conhecimento, pelo estudo de diferentes realidades nacionais, especialmente aquelas consideradas periféricas e pela ampliação das possibilidades analíticas, teóricas e metodológicas no estudo das relações dos indivíduos e grupos em suas mais variadas formas de disputas e conflitos.

O público brasileiro talvez encontre alguma dificuldade no fato do livro ser escrito em espanhol, mas, em contrapartida, a apresentação nesse idioma é justamente um dos fatores que tem permitido aos pesquisadores brasileiros darem a conhecer a um público estrangeiro mais amplo os resultados de seus estudos. Além disso, alguns erros de editoração, que não chegam a comprometer a leitura, devem ser corrigidos para uma oportuna segunda edição. Para concluir, resta dizer que, não obstante a predominância das temáticas e pesquisadores relacionados à história espanhola, a obra pode ser considerada como um importante esforço para o intercâmbio de ideias e para superação de barreiras nacionais na difusão de resultados de pesquisa, permitindo uma compreensão do “estado da arte” da temática nos diferentes países e tornando-se assim uma leitura muito proveitosa a todos os que se interessam pelos enfrentamentos políticos, culturais e sociais em suas variadas possibilidades de estudo.

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